A construção da identidade quilombolas dos membros da
comunidade Fazenda Pilar, esta ligada a categoria de herdeiro e é utilizada
para operacionalizar a diferenciação entre
membros ou não do grupo.
É herdeiro todo aquele em que se reconhece uma relação
através da genealogia de sua família que o liga aos antigos ex-escravos
legatários os primeiros herdeiros ; a genealogia estabelecida em direção ao
passado é geralmente reconhecida pelos demais parentes que localizam o lugar da
pessoa no conjunto das famílias dos herdeiros.
O caso do Sr. Antônio Francisco Galério é um exemplo de como funciona o processo de diferenciação
de herdeiros e não herdeiros ; a família do Sr. Antônio , no final da década de
80, ocupou um terreno baldio no Bairro do Campo Grande em Pilar do Sul .
A partir de então se inicia uma luta judicial entre a
família do Sr. Antônio e a prefeitura Municipal de Pilar do Sul, José Paes Filho
(pai do Sr. Antônio) afirmava que tinha direito naquelas terras por doação
feita pelo Tenente Antônio de Almeida Leite aos seus ex-escravos .
A prefeitura de Pilar do Sul, considerou a reclamação
absurda e moveu uma ação de despejo para a família ; o caso ganhou as paginas
dos jornais e despertou o interesse do Sr. Orlando , Presidente da Associação
Afro que resolveu fazer uma visita ao Sr. José e sua família.
O Sr. Orlando acompanhou todo o caso e o despejo da família
do terreno onde residiam; foi ele que apresentou o Sr. Antônio para alguns
membros da comunidade da Fazenda Pilar o levando a fazer parte da Associação
Quilombo da Fazenda Pilar, mas ocorreram desentendimento dentro do grupo e o
Sr. Antônio se afastou.
Ao iniciar os estudo para reconhecimento desse grupo não
conhecia toda essa historia e achava o afastamento do Sr. Antônio do grupo se
dava por motivos de briga de família; então , procurei reaproxima-los , mas em
uma reunião com todos os membros da Associação ficou evidente que o Sr. Antônio
não fazia parte da comunidade.
Seu caso foi discutido durante a reunião da Associação e uma
das senhoras do grupo pediu para o Sr. Antônio colocar o rosto mais próximo da
janela para que pudéssemos ver melhor suas feições .
Então, ela soltou uma exclamação , Ah, eu não conheço você
e, em seguida perguntou: Qual é o nome de seus pais ? o Sr. Antônio
constrangido tentou se reportar geração por geração, até o casal de escravos do
Tenente Antônio de Almeida Leite, que segundo ele, originou a sua família , na
sala todos se perguntavam: quem eram aquelas pessoas .
Apesar de todo o esforço , o Sr. Antônio não conseguiu
estabelecer uma relação de parentesco ,
considerada valida pelo grupo, com aquela comunidade de herdeiros; mesmo assim
o grupo acabou aceitando como membro da Associação .
Algumas semanas depois quando voltei a Pilar para dar
continuidade aos trabalhos de reconhecimento do grupo como Quilombo fui
informada que havia ocorrido uma reunião só com os cabeças da comunidade e que
eles não queriam o Sr. Antônio no grupo porque ele não tinha conseguido provar
que era herdeiro, então os senhores Enoc e Deodato me contaram toda a historia
, já relatada acima .
Assim, a identidade desse grupo se define por uma referencia
histórica comum construída a partir de vivencias e valores partilhados ; neste
sentido , constituem grupos Étnicos conceitualmente definidos pela antropologia
como um tipo organizacional que confere pertencimento através de normas e meios
empregados para indicar a filiação ou exclusão .
As terras doadas pelo Tenente Almeida aos seus antepassados
foram o suporte sobre o qual elaborou uma noção de pertencimento a uma
coletividade, constituem o suporte sobre o qual se construiu uma nação de
comunidade de parentes.
Segundo Barth, a identidade é construída numa relação que
opõem um grupo aos outros com os quais esta em contato, a relação dos moradores
de Pilar do Sul, e inclusive das autoridades municipais com os membros da
comunidade Fazenda Pilar é no mínimo diferente de outras situações encontrada
no Estado de São Paulo.
Em geral , as pessoas ao serem inquiridas sobre a comunidade
quilombola que existe no seu município
procuram expressar sua opinião em relação ao grupo, se eles tem ou não direito
as terras reivindicadas e ficam curiosos para saber mais a respeito do assunto.
Porem, as pessoas com quem conversei em Pilar do Sul, agem
estranhamente , quando são inqueridas sobre o assunto; alguns negam a
existência de uma comunidade quilombola no município, mas a grande maioria
simplesmente se cala , quando entro nesse assunto.
No inicio pensei que não sabiam do que eu estava falando e
tentava explicar, mas algumas pessoas devido a minha insistência respondiam
apenas que conheciam o caso , e se calavam ou mudavam de assunto, assim, todos
se comportavam como se tivessem algo a esconder um segredo.
Conforme pesquisa sobre a historia da ocupação das terras da
comunidade da Fazenda Pilar avançava pude compreender o porque de tanto segredo
, na verdade , os membros de varias famílias que, até hoje tem poder e
prestigio em Pilar do Sul, participaram do processo de expropriação do
território da comunidade Fazenda Pilar.
Neste caso, o segredo foi e é utilizado como um mecanismo de
manutenção do poder e prestigio desse grupo de famílias , ou seja , um meio de
controle social segundo Simmel 1974, o segredo pode ser um mecanismo de
segregação destinado a conformação , conservação e hegemonia de um setor da
sociedade.
No caso de Pilar do Sul, o segredo foi utilizado para
inviabilizar os negros existentes no município varrendo sua presença da
historia da cidade , porem essas famílias também criaram estratégias de
resistência ,nessa situação esse grupo
utilizou seus recursos de identidade de maneira estratégica.
Para cucheno medida em que a identidade é um motivo de
lutas sociais de classificação que buscam a reprodução ou a reviravolta das
relações de dominação , a identidade se constrói através das estratégias dos
autores sociais .
Assim, o grupo por meio de diversas estratégias conseguiu se
manter no seu território, até os dias de hoje, unidos por uma comunidade de
parentes entorno da noção de herdeiros .
Além disso, criou uma organização politica própria no qual
cada grupo familiar tem um líder chamado de CABEÇA que responde pelo seu grupo
familiar ;no quadro genealógico da comunidade de quilombo Fazenda Pilar esta
destacado em verde os cabeças de cada família.
Cada grupo pode ser composto por ate quatro geração e o
cabeça do grupo geralmente é a pessoa mais velha , homem ou mulher, com ligação
de parentesco com os ex-escravos legatários.
Nesse ultimo caso aquele que passou a fazer parte da família
por meio de casamento não pode ser cabeça; e mesmo que essa pessoa consiga uma
posição de destaque dentro do grupo nas situações onde são exigidos tomadas
decisão o voto valido é do cabeça.
È importante destacar como a identidade é pensada por este
grupo ela não é algo estático, mas dinâmico e multidimensional; é isso que lhe
confere sua complexidade, mas também é o que da sua flexibilidade.
Quem eu sou é sempre uma pergunta em aberto dependendo da
minha posição no processo de interação com o outro para quem se fala , da minha
historia de vida e do imaginário social .
Teia de significados produzidos pelos homens e mulheres no
decorrer da historia e que circulam na sociedade a partir das narrativas,
lendas, textos, memorias, iconografias e conversa do cotidiano.
CONSIDERAÇÕES FINAIS DO RELATÓRIO
Com base no estudo técnicos cientifico da comunidade Fazenda
Pilar considerando-se que os trabalhos antropológicos não deixam duvidas sobre
a origem quilombolas da mesma esse grupo ocupa o mesmo território há 137 anos .
Sua formação ocorreu a partir da doação feita em Testamento
pelo Tenente Antônio de Almeida Leite, que foi aberto em 1870; essa doação deu
origem a formação de vários núcleos de escravos libertos ligados por relações de
parentescos dispersos pelas terras da Fazenda Pilar.
Essa situação se manteve até a década de 1950 quando teve
inicio o processo de expropriação das
terras dessa comunidade; atualmente cerca de 70% (setenta por cento) do seu
território esta ocupado pela área urbana de Pilar do Sul, restando apenas 30% (
trinta por cento) de pasto.
Apesar de todo esse processo de fragmentação do seu
território os membros dessa comunidade permanecem até os dias de hoje
resistindo nas terras que foram doadas para seus antepassados.
È importante ressaltar que os membros dessa comunidade estão
cientes da situação singular do seu território , também compreendem que as
pessoas de fora da comunidade, que ocupam hoje suas terras na porção urbana,
passaram a residir nesse local de Boa Fé sendo assim ,é praticamente impossível
retirar todas essas famílias do seu território.
Dessa forma , os membros dessa comunidade estão disposto a
buscar junto aos órgãos competentes uma solução para o caso ; como por exemplo
, uma compensação em terras na área rural de Pilar do Sul.
Além disso, faz-se urgente a desapropriação e titulação de
outra porção do território ( área de pasto) onde os atuais proprietários estão
interessados em vender seus terrenos que serão transformados em novos
loteamentos.
CONCLUI-SE: que os membros do grupo denominado Fazenda Pilar
são Remanescentes de Comunidade de Quilombo, de acordo com as definições que
embasam os critérios oficiais de reconhecimento adotados pelo Estado de São
Paulo, e devem , portanto, gozar dos direitos que tal identificação lhes
assegura, que se faz urgente , a regularização fundiária do território
quilombola aqui demonstrado, de área de 547,0113 hectares.
(
A)
Patrícia
Scalli dos Santos – Analista do Desenvolvimento Agrário.
FIM
DO RELATORIO





